Butler

Boas notícias são notícia?

Alejandro Butlerjunho de 2021

Todos os dias acompanhamos uma narrativa sobre o que vivem nossa sociedade e o mundo. É uma seleção de acontecimentos elaborada por profissionais do jornalismo que cumprem um papel importante ao escolher os temas “de interesse público”.

No entanto, a cada dia, essa narrativa que consumimos nos diferentes meios — e que hoje é amplificada pelas redes sociais — nos conta uma parcela minúscula da realidade. Há uma lógica nisso. Nas antigas aulas de jornalismo, explicava-se que não é notícia um cachorro morder uma pessoa; notícia seria acontecer o contrário. Essa dinâmica faz sentido, mas provoca uma percepção da realidade que não é real, com o perdão da contradição. A verdade é que a normalidade é o que acontece e conduz a vida cotidiana de milhões de pessoas em todo o mundo, enquanto as exceções, mesmo ocupando um espaço importante na agenda de notícias, continuam sendo exceções.

Compreendendo essa lógica, é válido perguntar por que não dedicar mais espaço nas notícias à normalidade, contando-a de forma atraente. É um desafio narrativo, mas vale a pena formulá-lo. Pode-se argumentar que um relato sobre “a normalidade” não tem atrativo nem interesse público, não desperta interesse e, portanto, também não gera nem retém audiência — que, em última análise, é o que sustenta os meios de comunicação.

Construir novas narrativas para contar de maneira diferente aquilo que faz a sociedade funcionar é um desafio para os comunicadores e, em minha opinião, uma responsabilidade social da nossa profissão e uma obrigação moral.

Isso não é difícil quando se trata de organizações públicas, porque sua própria natureza as torna objeto de interesse público. Tudo o que um órgão público faz ou deixa de fazer utiliza recursos fornecidos pelos cidadãos e deve prestar contas a eles por esse uso. Muitos jornalistas dirão que ampliar a visibilidade do que é bem-feito é responsabilidade desses órgãos, e não da imprensa; que seu papel é dar visibilidade aos desvios, não à normalidade. O argumento é compreensível, mas gera uma distorção da realidade se a imprensa se limita a amplificar o que está errado, o que não funciona e as irregularidades. Ter consciência desse efeito cria um dilema ético para a profissão que, a meu ver, se resolve abrindo espaço também para o que funciona bem. O desafio, então, é encontrar a narrativa adequada para fazer isso sem abrir mão de nenhum critério de trabalho jornalístico profissional — pelo contrário. Quanto espaço dar a um ou outro tipo de conteúdo? Qual é a medida correta? É realmente difícil, para não dizer impossível, quantificar esse equilíbrio supostamente desejável. Mas sua definição faz parte do trabalho diário dos editores de todos os meios e representa uma de suas tarefas e responsabilidades sociais mais difíceis.

No âmbito privado, pode parecer mais difícil alcançar esse interesse público. No entanto, empresas e organizações privadas são um pilar fundamental do funcionamento de uma sociedade, e sua exposição pública também cumpre uma importante função de controle social. Isso deveria valer tanto para a notícia que denuncia irregularidades quanto para aquela que conta boas notícias. Quando algo positivo feito por uma empresa ou organização privada é notícia? Quando suas consequências afetam muitas pessoas? Quantas pessoas precisam ser afetadas para que seja notícia? Esse é o critério? Ou é o caráter inédito, novo, único? Certamente, uma combinação de todos esses fatores está presente na decisão dos editores sempre que recebem um comunicado de imprensa. Todos sabemos que um comunicado tem valor muito limitado para um jornalista, mas algum valor ele tem; ampliá-lo e transformá-lo em uma matéria relevante é um desafio para todos os comunicadores que participam desse processo. É nisso que estamos trabalhando.

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